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Reconectando

Texto escrito para o Blog Maternar Bh – Novembro/2018 - Tema: Como comemos

Olá pessoal! No artigo do mês passado falamos um pouco do PORQUE comemos, trouxe para vocês um pouco da minha história com a comida e desejo tê-los inspirado a olhar com carinho e curiosidade para a de vocês.

Neste mês o tema do artigo é o COMO comemos. Será que sabemos COMO comer?

Pode parecer piada essa pergunta, pois em um primeiro ímpeto é possível que alguém aqui me responda: -- É claro, uai! Como poderíamos não saber, se comemos desde que nascemos?!

Para esclarecer, vou me inspirar em uma referência fresquinha sobre o assunto, o Livro* Mindful Eating: Comer com Atenção Plena (ANTONACCIO & FIGUEIREDO, 2018) e também contar um pouco mais da minha história pra vocês.

Sim, comemos desde que nascemos. Mas será que comemos no presente da mesma maneira que comíamos no passado? Será que ainda somos os mesmos, vivemos e comemos como nossos pais? (Salve Elis Regina rs) Como nossos avós? Não? E o que há de diferente então?

Sinto muito orgulho de contar que minha família veio da roça, meu avô migrou do interior de Minas para o interior de São Paulo em busca de melhores mercados para o marmelo e o leite que ele produzia em suas terras. Meu pai era o terceiro mais velho dos 14 filhos e desde cedo ajudava meu avô na lida. Minha mãe nasceu na cidade, mas dava aula na escola rural que havia dentro da propriedade do meu avô. Nesse cenário, meus pais se conheceram e se casaram. Meu pai seguiu como pequeno produtor de leite. Na porção de terra que lhe cabia construiu uma casinha e lá foram começar a vida juntos. Tiveram 2 filhos e por lá viveram por um tempo. Minha mãe conta com água na boca que um dos desejos da primeira gravidez que ela teve foi de comer leitoa (segundo ela tinha que ser novinha e pequena rs), assada e bem puruca... Ela manifestou a vontade e meu pai foi procurar. Assim eles escolheram o bichinho no chiqueiro do compadre, engordaram a tal leitoa por um período, mataram, limparam direitinho e assaram no final do ano. Como era de costume, separaram a banha e de uma das bandas da leitoa fizeram carne de lata. Aquela carne conservada na banha de porco dentro da lata, sabe!? Sei que essa passagem foi tão marcante para ela que hoje aos 80 anos ela conta essa história lambendo os beiços como se tivesse acontecido ontem.

Meu pai não teve muito estudo, mas era um grande observador da natureza. Minha mãe veio de família grande e muito simples, mas era professora do ensino básico. Eles nunca tiveram aula de educação nutricional, nem sabiam o que é caloria, mas sempre comeram arroz com feijão, carne, salada, legumes refogadinhos, frutas. Sempre fizeram suas refeições sentados à mesa e mantinham uma rotina minimamente organizada com café da manhã, almoço e jantar.

Mas por que estou eu contando tudo isso? Eu trouxe essa história porque acredito que muitos aqui vão se identificar com ela, tenho certeza que vários de vocês também tem esse pezinho na roça para buscar como referência. Sendo assim, resolvi trazer um parâmetro com sentido para ilustrar para vocês a ideia de que abraçar a avalanche de informações nutricionais que temos por aí e mergulhar nas tentativas de controlar calorias e composição das refeições de maneira obsessiva, talvez não seja o melhor forma de viver a alimentação. Entretanto, o mundo dos nossos pais ou avós já não existe mais, não é!? Eles moravam na roça, comiam o que plantavam, cozinhavam com a banha e comiam a carne do que criavam. Replicavam os costumes dos familiares, que por sua vez tinham na cultura o modo como se produz, se prepara e se come os alimentos. O tempo era outro, no contexto e no relógio. Os processos que se percebia como parte da alimentação eram mais suaves e mais completos, os ciclos mais vividos e tinha época para tudo. A alimentação continha, literalmente e metaforicamente, o sentido e a cadência do preparar a terra, plantar, brotar e crescer, colher, comer, descansar e contemplar.

De um tempo pra cá parece que tudo se transformou, nós mudamos o nosso modo de comer e de pensar a alimentação. Está cada vez mais complicado pois nosso ritmo de vida assumiu uma velocidade incompatível até mesmo com o balanço das horas. Nossos dias parecem ter menos horas, nossas horas menos minutos, e nossos segundos menos de nós mesmos para experienciá-los com presença. Nos distanciamos da comida, do campo, da origem dos alimentos, da cultura alimentar. Não plantamos, não colhemos, não cozinhamos mais! Não nos movimentamos como antes. O acesso aos alimentos é muito maior, eles estão ao alcance de nossas mãos, mas são em grande parte processados pela indústria. Curiosamente nunca se falou tanto em “saúde” e “nutrição” como nos dias de hoje, porém isso tem acontecido a partir de um prisma bem reducionista que foge ao conceito de saúde integral. Segundo a Organização Mundial da Saúde “Saúde não é somente a ausência de doenças e sim um estado de bem estar físico, mental e espiritual”. Para estar saudável não devemos cuidar apenas do corpo, mas também da mente, da alma, da cultura, da família e da sociedade. Ao contrário disso, o que vemos hoje é uma lógica baseada na culpa e na vergonha que julga as pessoas por suas escolhas e as estigmatiza por seus corpos.

Quando o comer virou motivo de vergonha ou culpa, de repente a ciência da Nutrição tristemente foi minimizada. Virou nutricionismo, terrorismo alimentar com foco nos nutrientes e não na comida, que traz uma visão irreal do comer saudável.

Pode? Não pode? É saudável? Não é saudável? O que devo comer? Quantas porções? Como me organizar? Como fazer minhas escolhas? Quem vai me orientar?

Confuso ne?! Você também tem se sentido CONFUS@?

Pois é, e a questão está posta à mesa: O que fazer em meio a tudo isso?

Ir morar na roça??? Cabe bem como sonho, mas essa não é a resposta no tempo presente. Há de ser uma estratégia compatível com o contexto atual para que seja viável, exequível e sustentável afinal comeremos até o fim dos nossos dias. E é por isso que a relação com a comida precisa ser positiva e ancorada em informações internas, justamente por se tratar de algo tão fundamental à nossa existência.

Você deve estar se perguntando, mas como assim uma relação com os alimentos positiva e ancorada em mim? Marle Alvarenga, Idealizadora no Instituto de Nutrição Comportamental, em seu prefácio no livro* descreve o Mindful Eating como um “caminho de reconexão com a comida e com o corpo, feita de modo atento, sem julgamento, com respeito e compaixão por si mesmo. Um caminho que valoriza a cadeia de produção dos alimentos. Que inclui toda a nossa rede de relacionamentos. Um caminho que respeita e favorece a saúde integral”.

Ela ainda afirma que a Alimentação Consciente é um modelo que pode propiciar esse caminho e elucida: A Alimentação Consciente (Mindful Eating) está baseada na Atenção Plena (Mindfulness) que apresenta técnicas de viver o aqui e o agora, sem julgamentos e com compaixão, ao ato de comer e à nossa relação com a comida. É interessante perceber que através de uma postura meditativa é possível rever o ritmo acelerado em que vivemos. Essa postura nos permite conectar com o básico: a respiração, o corpo, o agora, a comida.

Eu me percebo, eu me aceito, eu me acolho e eu me transformo!!! Faz sentido para você?

Acredite, inserir essa essência e esses princípios na vida cotidiana pode ser muito mais tranquilo do que parece. Essa é uma estratégia que propicia uma relação mais saudável com a comida e com o corpo, é uma prática para a vida. É se fazer presente no ato de comer, é usar a consciência para fazer escolhas. É incluir a competência de todos os sentidos (visão, tato, olfato, paladar, audição, intuição) nessa experiência, é encontrar a satisfação e senti-la de maneira ampliada em cada pedacinho.

Experimente comer o seu chocolate preferido com presença, atenção e consciência. Pense nesse chocolate como único. Esse chocolate você nunca comeu e depois que você o incorporar ele já não existirá mais. Então honre essa experiência. Observe as nuances de cor, sinta o aroma, explore a textura. Coloque um pedaço na boca e experimente não mastigar de imediato. Desfrute do pedaço de chocolate na sua boca, na sua língua e depois abra a sua percepção para a potencialização do sabor que acontece quando você mastiga. Para onde esse chocolate te leva? Memórias? Sentimentos? Depois de engolir, antes de colocar imediatamente outro pedaço na boca, experimente continuar atento ao sabor desse chocolate que ainda permanece na sua língua. Bom demais, né?!

Essa é uma prática simples e a consciência que a atenção traz nos tira do piloto automático. Quantas vezes comemos a barra inteira de chocolate sem nem mesmo ver ou parar para degustar... Quem nunca? Contudo, se colocamos o foco atencional no comer é bem provável até que percebamos que nem é tão agradável assim comer a barra toda, é muito melhor aproveitar cada mordida!

Minha experiência a partir da Alimentação Consciente é de uma relação com a comida mais harmoniosa, mais rica e menos automática. É a vontade genuína e a escolha consciente de uma mesa mais equilibrada, significativa e leve.

E você? Que peso tem a sua mesa?

Referência:

*ANTONACCIO, C; FIGUEIREDO M. Mindful Eating: Comer com atenção plena. São Paulo: Ed Abril, 2018.